Cristo nossa páscoa, Cristo nossa paz- III Domingo de páscoa

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(Lc 24,35-48)

Por: Pe. Mairon Gavlik, L.C.

Temos junto do Pai um defensor. O evangelho de hoje nos fala da paz. Como é difícil viver em paz, sobretudo, como é difícil ter paz, esta paz que permanece, uma paz interior. Jesus vem mostrar um caminho seguro para essa paz que tanto desejamos.

Uma vez, enquanto estava rezando em um Igreja, aproximou-se de mim uma pessoa e pediu se podia conversar comigo. Claro, respondi. E ela seguiu. “Padre, eu queria perguntar para o senhor se Deus me perdoa”. Notei no seu rosto uma dor interna, um grande aperto no coração que não conseguia nem falar. Esperei um pouco, coloquei minha mão sobre seu ombro e perguntei: “Do que você gostaria de pedir perdão a Deus?” E esta pessoa começou a contar sua vida. E foi falando. Quando acabou de falar, me olhou novamente e me perguntou seriamente: “Padre, será que Deus pode perdoar o que eu fiz?” Naquele momento, lembrei de quando trouxeram a Jesus uma mulher pega em flagrante de adultério. Ela estava aos pés de Jesus, olhando para a terra, esperando que alguém jogasse a primeira pedra que iniciaria sua morte. Depois de uns momentos de total silêncio, escuta a voz de Jesus: “Filha alguém te condenou? Eu também não te condeno, vai e não tornes a pecar.” E senti que Jesus queria dizer ao coração desta pessoa: “Filho, eu não te condeno.” Mas como, depois de todos estes pecados? “Filho, eu não te condeno porque já paguei por teus pecados!”

Neste tempo pascal, a liturgia nos apresenta as aparições de Cristo ressuscitado. E muitas delas traz consigo o tema da paz. Muitos a buscam, mas nem todos sabem o que é a paz. O que é a paz? S. Agostinho diz que “a paz é a tranquilidade da ordem”. Mas o que tem a ver a ordem com a paz? Quando tudo está em ordem, quando tudo está no seu lugar, existe tranquilidade e paz. Existe uma sabedoria na mesma vida que nos ensina que as coisas fora de lugar, ou fora de tempo não dão certo, não nos trazem alegria. Lembremos de quando éramos pequenos. Teve um momento da nossa vida que crescemos de modo muito rápido. Nossos pais compravam uma roupa, um tênis e, de repente, aquilo começava a ficava apertado e nos incomodava. Nossa vida é assim. Quando algo está fora do lugar, quando algo começa a ficar apertado, perdemos a tranquilidade. Na vida desta pessoa que queria conversar comigo, tinha muitas coisas fora do seu devido lugar. E como ela poderia ficar em paz com uma vida assim?

Como ter paz interior?

O primeiro passo é olhar para nosso interior colocando antes um colírio que limpe nossa visão, sem óculos escuros para amenizar a realidade. Buscar a verdade da nossa vida. Conhecer a si mesmo, não temer descobrir quem somos, muito menos temer reconhecer a nossa realidade. Deixar de lado aquilo que gostaríamos de ser, as projeções, a imagem que temos de nós mesmos para tocar a realidade. É muito importante conhecer-se e aceitar-se profundamente. Se não descobrimos que na realidade é uma pequena ferpa o que machuca nosso dedo, como vamos poder tirá-la e estar novamente tranquilos?

É difícil pegar com nossas mãos e colocar encima da mesa do nosso coração as vezes que nos equivocamos, as vezes que não fizemos aquilo que devíamos fazer, as vezes que conscientemente escolhemos o caminho errado, o caminho da mentira, o caminho do egoísmo porque nos parecia, ao menos, mais vantajoso para nós, ainda que não o fosse para outras pessoas. Maria Madalena estava aos pés de Jesus, mas sem negar o que ela tinha feito, quem ela era. O terceiro passo para esta paz é oferecer-nos totalmente a Jesus com tudo aquilo que somos e temos. Não somente as partes bonitas da nossa vida; tudo, principalmente aquelas que mais nos feriram, pois suas feridas querem curar nossas feridas.

“Deus não desprezará um coração contrito e humilhado” (Sal 51). Quando apresentamos a Deus nossas necessidades com confiança de expor nossa verdade, Ele não nos deixa desamparados; quando chegamos até Deus com um coração sincero e arrependido, Ele pode fazer em nós uma nova criação, Ele pode tirar esta parte morta que temos dentro de nós e nos ressuscitar. É isso que Ele quer nos dizer hoje: “A paz esteja convosco! Vede minhas mãos e meus pés.” Era preciso. O Cristo sofrerá, ressuscitará, em seu nome será anunciado a conversão e o perdão dos pecados. Sereis minhas testemunhas, testemunhas do seu grande amor por nós. Por isso Jesus inicia dizendo: “Vede minhas mãos e meus pés. Era preciso, tinhas uma grande dívida, mas eu já paguei por ti.” Podemos replicar dizendo: “Mas eu menti, roubei, adulterei, matei.” S. Pedro responde assim: “Matastes o Senhor da vida, agistes por ignorância, arrependei-vos” (At 3). E S. João confirma a certeza do perdão dizendo: “Se alguém pecar, temos junto do Pai um defensor, vítima de expiação pelos nossos pecados.” (I Jo 2).

Suas feridas podem curar nossas feridas, se as apresentamos para o médico das nossas almas. Não basta crer que Jesus ressuscitou; é necessário experimentar a força da sua ressurreição em nossas vidas, experimentar sua força transformadora, sua mesma vida divina em nós. Foi isso o que levou a tantos cristãos deixarem sua vida antiga para testemunhar o grande amor que Deus teve por eles. É esta experiência do amor de Deus que nos faz seus apóstolos, testemunhas dos seu amor. Cristo ressuscitado não somente sobe ao céu glorioso. Antes disso, Ele desce ao lugar dos mortos para chamar a vida a Adão e todos os que lhe esperavam: “Vamos, saiamos daqui, porque não te criei para a morte, mas para a vida”. A ressurreição de Cristo também pode ser nossa ressurreição, pode ser esta vida nova, esta paz que tanto esperamos.

Eis que faço nova todas as coisas! Esta é a força da sua vitória sobre o pecado e sobre a morte. Os sacramentos do batismo e a mesma confissão é um morrer ao homem, a mulher velha, sem vida, para renascer com Cristo a uma vida nova. Que Deus nos conceda a graça de responder com sinceridade ao anúncio da ressurreição – Cristo ressuscitou – “Cristo ressuscitou verdadeiramente e transformou a minha vida”. Que a ressurreição de Cristo traga esta paz de ser perdoados, queridos e amados sem limites, sem mesmo os limites que nós colocamos quando nos afastamos de Deus com nossos pecados. Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Cristo ressuscitou verdadeiramente, aleluia!

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