Ecumenismo em Jerusalém | Bianca, consagrada: o carisma do Regnum Christi nos pede para sair “ao encontro de nossos irmãos e irmãs cristãos com respeito”

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Bianca de Mattos, consagrada do Regnum Christi há 28 anos, compartilhou sua experiência de vida e missão na Terra Santa. Ela mora em Jerusalém e faz parte da equipe pastoral do Instituto Pontifício Notre Dame Center. Nesta entrevista, ela nos apresenta a Oitava de Oração pela Unidade dos Cristãos, detalhando como este importante evento ecumênico anual é vivido na Cidade Santa e como o Regnum Christi atuou nesta ocasião, durante a guerra e sem peregrinos.

Muito consciente do que está ocorrendo na Terra Santa atualmente e no quão transcendental são os Santos Lugares para o cristão, Bianca começa fazendo um convite a todos: “Gostaria de convidar o maior número possível de pessoas tenham como uma meta de vida cristã vir à Terra Santa. Aqui, tudo é uma contínua composição de lugar sagrado, que enriquece e completa o nosso modo de viver a fé”. O que ela experimentou de maneira especial durante a Oitava de Oração pela Unidade dos Cristãos, ela relaciona com o carisma do Regnum Christi quando somos convidados a ir ao encontro de pessoas: “Acho que este é o primeiro passo: estar aberto e ir ao encontro de nossos irmãos e irmãs cristãos com muito respeito. Saber conviver nas diferenças e tentar responder, em conjunto, às necessidades atuais.”

Bianca, durante uma das celebrações pela Unidade dos Cristãos.

Qual é a origem histórica da Oitava para a Unidade dos Cristãos?

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é uma iniciativa proposta no início do século XX pelo bispo da igreja episcopal Paul Wattson e posteriormente revitalizada pelo abade francês Paul Couturier, e tem sido fundamental na promoção do ecumenismo. Com o apoio dos papas Pio X e Bento XV, esta semana foi marcada entre os dias 18 e 25 de janeiro. Após o nascimento do Conselho Mundial de Igrejas, em 1948, a semana ganhou reconhecimento global, reunindo igrejas de várias denominações para orar pela unidade dos cristãos. Um destaque deste movimento é a colaboração entre a Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas e o Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos da Santa Sé no desenvolvimento de materiais comuns para as celebrações, simbolizando um ponto alto de comunhão entre cristãos de diferentes tradições.

E como é vivida em Jerusalém?

As Igrejas de Jerusalém se organizaram para receber os fiéis e religiosos de diferentes tradições para um momento de oração juntos e, de fato, a programação leva em conta o período natalino nas diferentes Igrejas, já que algumas seguem o calendário juliano, o que faz com que esta semana em Jerusalém comece e termine um pouco mais tarde, de 20 a 28 de janeiro.

Participei em, pelo menos, cinco dias de oração e a intenção principal era a paz, recordando com solidariedade o sólido testemunho dos cristãos, especialmente os de Gaza. As cerimônias aconteciam nos principais locais de culto cristão da Cidade Velha. Ali, foi recitado o Evangelho do Bom Samaritano, seguido de uma breve exortação ou homilia, e o Pai Nosso, que cada um rezou na sua própria língua.

Foi lindo ver o acolhimento das Igrejas anfitriãs, destacando sua diversidade, suas particularidades históricas e culturais. Também é bom lembrar que aqui na Terra Santa, de uma forma única no mundo, quase todas as Igrejas estão presentes.

Como os diferentes ramos cristãos estão envolvidos?

Cada igreja preparou um guia escrito para aqueles de nós que vieram participar. A oração foi bem organizada e combinou hinos cantados, súplicas em diferentes línguas, o comentário sobre o texto de São Lucas 10:25-37, o Pai Nosso e a bênção concedida pelas várias autoridades eclesiais; por fim, compartilhamos também a mesa, com um lanche simples, mas delicioso, que estimulou o diálogo e a alegria do convívio.

Em cada um desses lugares, o que mais se podia observar era a oferta do dom a Deus e a vontade de contribuir para o espírito de unidade. O cronograma, a título de exemplo, era o seguinte:

  • 20 de janeiro, Anastasis (Santo Sepulcro), Igreja Ortodoxa Grega de “Apodeipnon”
  • 21 de janeiro, Catedral Anglicana de São Jorge.
  • 22 de janeiro, Catedral Armênia de São Tiago Apóstolo.
  • 23 de janeiro, Igreja Luterana do Redentor.
  • 24 de janeiro, Igreja Paroquial Latina de San Salvador.
  • 25 de janeiro, Cenáculo, local da Última Ceia.
  • 26 de janeiro, Igreja de São Jorge, Ortodoxa Copta.
  • 27 de janeiro, Igreja Ortodoxa Etíope.
  • 28 de janeiro, Igreja Greco-Católica da Anunciação.

Qual é o papel de Notre Dame de Jerusalém? Que atividades e cerimônias específicas acontecem nesses dias?

A missão do Notre Dame Center de Jerusalém, em geral, é proporcionar hospitalidade aos peregrinos de diferentes países que vêm visitar a Terra Santa, especialmente padres e religiosos; apoiar a iniciativas que gerem encontro e diálogo entre religiões, culturas e povos; e também o campo da educação, através de atividades de formação em particular com a população local.

Considerando as atuais circunstâncias de guerra que o país atravessa e a diminuição drástica de peregrinos e suas próprias atividades, durante a oitava, as consagradas do Regnum Christi e os Padres Legionários atuaram de duas maneiras especiais: por um lado, ajudamos a divulgar e sustentar o programa que chegou até nós através do Patriarcado Latino, anunciando-o em nossas missas diárias e, por escrito, em nossos boletins. E, por outro lado, assistimos pessoalmente a essas cerimônias, juntando-nos à comunidade local de Jerusalém.

 O que você destacaria sobre esse espírito ecumênico e sua relação com o Regnum Christi?

Ao caminhar pelas Igrejas, entre segunda e sexta-feira da semana passada, várias vezes me veio à mente e ao coração aquela expressão do nosso carisma: “Cristo Apóstolo que vai ao encontro das pessoas…”. Penso que este é o primeiro passo: estar aberto e estender a mão aos nossos irmãos e irmãs cristãos com respeito, saber conviver nas diferenças e tentar reagir em conjunto às necessidades atuais.

Você poderia sugerir um texto do evangelho que nos ajude a viver e compreender este espírito de unidade cristã?

Recomendo uma leitura lenta e meditativa do texto do Evangelho de Lucas que relata a parábola do Bom Samaritano. Para mim, pelo menos, foi especialmente esclarecedor nessa época, porque, fazendo leituras diferentes, descobri que alguns Padres da Igreja viam no homem que caminha de Jerusalém a Jericó a figura de Adão (humanidade). Ele é atacado por ladrões, pelos poderes terrenos, mas é salvo pelo Bom Samaritano, figura do próprio Cristo, que cura suas feridas e o deita em uma hospedaria, que é a Igreja, aguardando seu retorno (a parousia). Nós, cristãos, fazemos essa mesma experiência sem distinção, a nossa humanidade anseia pelo encontro mais essencial da nossa vida, o encontro com Cristo, porque sabemos ou intuímos que o Seu amor é capaz de curar as nossas feridas mais profundas. Mas há um lugar onde isso acontece, e isso é na Igreja, que oferece espaço para todos.

O Pai Nosso, que me parece a oração mais adequada para rezar juntos, também pode ajudar: afinal, clamamos ao mesmo Pai, ansiamos pelo mesmo Reino e reverenciamos a única vontade divina.

Por fim, sugiro uma composição de lugar: o último discurso ou oração de Cristo, na Quinta-feira Santa, no Cenáculo. Encontramo-lo no Evangelho de São João, capítulo 17. Lá, Ele expressa esse desejo de comunhão, e o fato de serem Suas últimas palavras lhes dá um peso especial para nós, cristãos.

Confesso que a cerimônia do dia 25 de janeiro, ali mesmo, no Cenáculo, foi a que mais me marcou, pois não precisei usar muita imaginação, estava no mesmo lugar onde Ele disse o que está escrito em Jo 17, presente, mas 20 séculos depois. O canto de abertura do Veni Creator nos colocou em sintonia com o Espírito Santo e depois de sua invocação parecia que já estávamos nas disposições mais apropriadas para aquele momento de oração.

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