Educação da Afetividade na Família: Formar para o Amor

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Como a familia pode ser espaço de escuta e gerar oportunidades para o diálogo

Adriana Seidel*

Há temas que parecem “difíceis demais” para serem trazidos à mesa do jantar. Muitas vezes é comum pensar que família é lugar para apenas alguns assuntos, mais leves, mais selecionados, menos polêmicos, mais confortáveis. Talvez esse seja o caminho mais fácil. No entanto, se não for a família o lugar de escuta, de atenção e de partilha, onde encontraremos tal lugar? Quando em família os pais evitam continuamente algumas conversas, especialmente sobre afetividade e sexualidade, quem acaba ocupando esse espaço é o ruído do mundo. A fé cristã, ao contrário, insiste que educar é introduzir a pessoa na verdade sobre si mesma, e sobre o sentido do corpo, do amor e da vida. A Igreja reconhece que os pais enfrentam desafios reais na preparação dos filhos para a vida adulta, especialmente no campo da sexualidade. Justamente por isso, oferece orientações para que a família não abandone essa tarefa, pois como disse o Papa João Paulo II (1981), na Familiaris Consortio (nº 37), mesmo diante das dificuldades do processo educativo, cabe aos pais a responsabilidade primária de formar seus filhos nos princípios essenciais da vida humana, com coragem e confiança.

Formação dos pais

Nesse sentido, a formação pessoal faz-se necessária, sobretudo para os pais, a fim de conhecerem a verdade e assim conduzirem os filhos a uma educação segura e bem fundamentada. Muitas vezes ouvi a pergunta de qual livro seria adequado para falar de sexualidade com os filhos ou até mesmo para o casal. Ao longo dos anos em grupos de jovens e sendo mãe de 3 adolescentes, reconheço que não existe livro perfeito, o manual completo ou o curso irretocável. De cada material, é possível recolher algo que faça sentido a cada ambiente familiar. Apesar disso, existe uma responsabilidade real: formar-se bem para educar bem. Uma formação que não se restrinja apenas à transmissão de conteúdo, mas que seja um caminho que acompanha os desafios reais da vida dos filhos em cada etapa da vida,  para a vivência de uma afetividade e sexualidade saudáveis em que os filhos aprendam a apreciar os valores humanos e morais a ela associados (Pontifical Council for Justice and Peace [PCJP], 2006).

Mesmo não possuindo conhecimento pleno de todos os assuntos, podemos buscar um caminho para tratar cada tema de uma forma leve e inspiradora. Daí a  importância de conhecer os nossos filhos individualmente, seus temperamentos, suas dificuldades e suas potencialidades, o que pode nos ajudar a criar as pontes necessárias para tratar todos os assuntos, dos mais triviais aos mais delicados.

Recordo uma tentativa de falar sobre sexualidade com dois dos nossos filhos adolescentes juntos, em uma mesma conversa, um menino e uma menina. O que aconteceu? Houve um bloqueio imediato, um filho constrangido e um convite suave de uma voz feminina me dizendo: “Podemos conversar sobre isso separadamente?”. Na tentativa de ser uma mãe participativa, não havia percebido naquele momento a necessidade individual de cada filho. No entanto, esses erros que nós pais podemos cometer não devem cercear a nossa vontade em acertar e devemos continuar tentando e buscando em oração a melhor forma de formar nossos filhos como Deus os vê: únicos.

Família: o lugar do amor e da cumplicidade

O Papa Francisco em sua exortação apostólica Amoris Laetitia (nº 280), nos ensina que a educação sexual só pode ser vista no quadro mais amplo de uma educação para o amor. Assim, formar a afetividade e a sexualidade é sobretudo formar no amor.  Por isso é preciso antes de mais nada criar ambientes amorosos nas conversas familiares onde cada um consiga se expressar, falar de seus desafios e de suas dores e alegrias. Isso ajuda a criar o ambiente de confiança e abre os caminhos para as conversas mais difíceis e mais íntimas. O hábito de reunir-se periodicamente e de forma sagrada ao redor da mesa pode trazer um ambiente onde as ideias surgem, a essência de cada um se revela e boas risadas mostram aos filhos que ali, na intimidade da família, existe um lugar seguro para trazerem todos os assuntos, frustrações e  sucessos, dores e alegrias, enfim, compartilharem a própria vida.

Dessa maneira, conversar de assuntos delicados em família deixará de ser um desafio, a partir do momento que tornamos a família um lugar de cumplicidade real em que há um ambiente de conversa onde o diálogo é natural e a construção deste lugar de conversa se dá para todos os tipos de assuntos, sobretudo os temas de sexualidade.

A educação sexual na família não é uma espécie de aula pontual, ou uma conversa definitiva. Deve ser parte do cotidiano, aproveitando as diversas situações vividas do dia a dia para oferecer aos filhos pequenas formações e conversas, com naturalidade e gradualidade. É parte da missão dos pais: servir como referência, acompanhando cada fase do desenvolvimento humano com verdade, afeto e prudência — sempre com respeito à liberdade da pessoa, sem perder a responsabilidade de iluminar.

Educar na liberdade

Quando os filhos crescem e iniciam a vida adulta, os pais enfrentam outros desafios na educação da sexualidade e da afetividade. Os filhos passam a fazer suas próprias escolhas, as quais eventualmente, divergem das escolhas dos pais. Nesse contexto está a importância de educar na liberdade. Educamos com liberdade quando entendemos que os filhos não são propriedade paterna, mas antes de tudo são filhos de Deus, criados por Ele e entregues à responsabilidade dos pais para que os conduzam nos caminhos de Deus. Isso exige uma renúncia: a vontade de controlar cada escolha como se ela fosse programável. A formação cristã propõe um caminho diferente: pais que educam por motivos nobres, por virtudes, por valores cristãos, e não apenas por autoridade. Há uma razão profunda para isso: a pessoa precisa perceber em sua própria experiência a realidade da vida, para que o bem moral não seja percebido como arbitrário, mas como conveniente à verdade do ser humano. Quando essa base falta, educar vira apenas obediência vazia. Na linguagem da tradição do amor humano, o desafio não é negar a liberdade, mas colocá-la em contato com a beleza e o propósito do amor verdadeiro.

Educar na liberdade pode ser comparado ao ato de sustentar um punhado de areia na palma da mão: ao fechar excessivamente os dedos, a areia escapa por entre eles; ao abrir completamente a mão, ela se dispersa ao vento. Educar na liberdade é encontrar esse equilíbrio, que consiste em oferecer aos filhos suporte, acolhimento e orientação, permitindo-lhes desenvolver autonomia, mas também referências sólidas que os auxiliem na escolha dos melhores caminhos.

Conclusão

Por fim, compreende-se que a educação sexual na família transcende o mero sentido humano, que propõe uma liberdade sem responsabilidade ou a simples imposição de um conjunto de regras formais e vazias. Trata-se sobretudo de um delicado itinerário de formação para o amor em sua totalidade, que se doa sem medida. Como a afetividade e a sexualidade perpassam todas as dimensões da pessoa, a família é chamada a ser um lugar de intimidade e confiança, onde temas delicados não são adiados, mas integrados ao cotidiano com coragem, confiança e sabedoria. Ao assumir esse diálogo amoroso, os pais edificam um solo sagrado que protege os filhos do ruído do mundo e das pressões externas, ensinando-os a ler a linguagem do corpo como um dom de Deus, um caminho de doação e respeito. Assim, ao caminharem lado a lado, pais e filhos cultivam em família uma comunidade de amor, formando corações livres e capazes de amar verdadeiramente.

REFERÊNCIAS

Pope John Paul II. (1981). Familiaris Consortio. Libreria Editrice Vaticana. https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/en/apostexhortations/documents/hfjp-iiexh19811122_familiaris-consortio.html

Pontifical Council for Justice and Peace. (2006). Compendium of the Social Doctrine of the Church. Libreria Editrice Vaticana. https://www.vatican.va/romancuria/pontificalcouncils/justpeace/documents/rcpcjustpeacedoc20060526compendio-dott-socen.html

Pope Francis. (2016). Amoris Laetitia [The joy of love] [Apostolic Exhortation]. Libreria Editrice Vaticana. https://www.vatican.va/content/francesco/en/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html


*Adriana Seidel é casada há 20 anos e mãe de três filhos. Gerente de Projetos com mais de 15 anos de experiência em gestão na área educacional. Membro do Regnum Christi desde 2005 e Membro da Plenária Territorial do Regnum Christi

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